Em entrevista ao Portal Vermelho, durante o 16º Congresso Nacional do PCdoB, o dirigente cubano Rolando Yero Travieso (foto abaixo) analisa os efeitos da política de bloqueio norte-americano, o novo programa de governo e o legado de Fidel Castro.
Travieso é Chefe do Departamento de Atenção ao Setor Social do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba. Diante das agressões externas e dos desafios econômicos, ele afirma que “a unidade, a verdade e a participação popular continuam sendo as armas fundamentais da Revolução.”
Vermelho – Os Estados Unidos impediram a participação de Cuba na reunião do Conselho Diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em Washington. Cuba também foi excluída – ao lado da Venezuela e da Nicarágua – da Cúpula das Américas, prevista para dezembro, na República Dominicana. Ao mesmo tempo, cresce a escalada militar dos Estados Unidos no Caribe, enquanto Cuba permanece injustamente incluída na lista de países patrocinadores do terrorismo. Por que esses ataques têm se intensificado?
Rolando Yero Travieso – Há um antecedente claro: o governo de Donald Trump, durante seu primeiro mandato, impôs 243 medidas coercitivas contra Cuba, com impacto devastador sobre a economia, o desenvolvimento social e o bem-estar da população. Essas medidas foram particularmente cruéis por terem sido adotadas durante a pandemia da Covid-19, dificultando o acesso da ilha a insumos básicos para a sobrevivência humana.
Comunista cubano durante evento no Brasil | Foto: PCdoB
Trata-se da velha política norte-americana de asfixiar a Revolução Cubana para tentar restaurar o capitalismo e eliminar o exemplo que Cuba representa para o continente. O governo de Trump, com suas características ultraconservadoras e traços fascistas, também se articulou internamente com figuras da política norte-americana associadas a setores hostis a Cuba. Portanto, não deve surpreender que um dos objetivos dessa administração tenha sido incentivar e intensificar todos os esforços para mutilar a Revolução Cubana.
Milhões de cubanos, autoridades políticas, sociais e sindicais do país, assim como convidados de delegações internacionais, se reuniram nesta quinta-feira (1) nos principais pontos do país para celebrar o Dia Internacional do Trabalhador. A maior concentração ocorreu na Praça da Revolução José Martí em Havana, capital de Cuba, que contou com cerca de 600 mil pessoas.
A marcha deste ano foi dedicada aos médicos cubanos, o chamado “exército de jalecos brancos”. A professora Miltadia González Giménez conversou com a reportagem no Brasil de Fato nas ruas de Havana e disse que os cubanos estão “interessados na paz”.
“Cuba acredita num mundo melhor, Cuba acredita na juventude, acredita na paz, no Brasil, no movimento pela terra. É disso que precisamos: trabalhadores, não guerra, não bombas. Comida e médicos, não bombas”, disse.
Além disso, a mobilização teve um caráter especial, pois marcou o 25º aniversário do emblemático discurso de Fidel Castro durante as comemorações do 1º de Maio de 2000, quando ele definiu o significado da Revolução.
Trabalhadores cubanos na Praça da Revolução em Havana | Foto: @PartidoPCC
Foi a primeira vez que Fidel fez uma definição da palavra e, naquela ocasião, diante de milhares de pessoas (assista no vídeo abaixo), ele declarou que:
“Revolução é sentido do momento histórico, é mudar tudo o que deve ser mudado, é a plena igualdade e liberdade; é ser tratado e tratar os demais como seres humanos; é emancipar-se por nós mesmos e com nossos próprios esforços; é desafiar as poderosas forças dominantes dentro e fora da esfera social e nacional; é defender os valores em que se acredita ao preço de qualquer sacrifício; é modéstia, abnegação, altruísmo, solidariedade e heroísmo; é lutar com audácia, inteligência e realismo; é jamais mentir ou violar princípios éticos; é a profunda convicção de que não há força no mundo capaz de esmagar a força da verdade e das ideias. Revolução é unidade, é independência, é lutar por nossos sonhos de justiça para Cuba e para o mundo, que é a base de nosso patriotismo, nosso socialismo e nosso internacionalismo”.
Em 2024 completam-se 65 anos da Revolução Cubana. Para comemorar a data, a União da Juventude Socialista (UJS) em parceria com a Fundação Maurício Grabois está organizando um minicurso sobre o tema.
Para participar é só realizar a inscrição de forma gratuita no link.
Os encontros acontecerão nos dias 11, 18, 25 de novembro e 2 de dezembro, sempre às 18h30.
Curso: 65 anos da Revolução Cubana
O curso será composto por 04 aulas gratuitas e on-line, e garantirá certificado de participação disponibilizado assim que finalizado o cronograma de aulas. As aulas ocorrerão das 18h30 às 20h30, sendo a primeira hora destinada à apresentação do tema pelo professor e a segunda aula destinada às perguntas e respostas.
11/11 - Aula 1: O pensamento Martiano e a luta por uma segunda independência latinoamericana - Contexto Histórico da Revolução.
18/11 - Aula 2: O modelo socialista cubano e a ruptura com as heranças coloniais e imperialistas.
25/11 - Aula 3: Solidariedade Internacional e repercussões da Revolução Cubana no mundo.
02/12 - Aula 4: Atualização do modelo socialista em Cuba e os desafios contemporâneos da Revolução cubana.
Alguns assuntos, ainda que passem anos ou décadas, não saem do noticiário. Nem do imaginário. Cuba é um deles. Desde que um bando de barbudos deu início à luta armada que levaria ao sucesso da Revolução Cubana em 1959, a ilha é motivo de debates apaixonados. Entre a utopia e o cansaço busca romper com essa tradição: não a do debate, mas a das paixões.
Os 22 textos aqui reunidos complexificam os principais tópicos de discussão sobre a realidade cubana. Homossexualidade, religião, racismo, protestos políticos, participação popular, as Forças Armadas, as reformas econômicas e monetárias, a imigração, as relações com Washington, a nova Constituição, a juventude.
A cada página, este livro se distancia da dicotomia estreita que, por um lado, destaca alguns aspectos da vida na maior das Antilhas como prova inequívoca de que o socialismo não funciona, ou, por outro, recorta a realidade de maneira a louvar apenas as evidentes benesses do regime. As análises, portanto, se baseiam em uma Cuba de hotéis luxuosos e casas caindo aos pedaços, atendimento médico universal e escassez de alimentos, educação para todos e apagões elétricos, partido único e Facebook.
Embora as vozes aqui reunidas tenham pontos de vista divergentes, nenhum dos autores e autoras desta compilação deixa de reconhecer a façanha do grupo de jovens revolucionários que, no quintal dos Estados Unidos, em plena Guerra Fria, derrubou a ditadura de Fulgencio Batista e depois repeliu uma invasão militar ianque com a força da vontade de um povo comprometido com o anti-imperialismo. Apesar dessa constatação, cada capítulo ressalta uma miríade de contradições que foram se acumulando ao longo de 65 anos de transformações nacionais, regionais e globais.
Dia do Trabalhador em Havana, Cuba | Foto: El Necio
Por Sturt Silva
Segundo a imprensa cubana, cerca de 4 milhões de cubanos e cubanas foram às ruas nesse 1º de Maio, Dia Internacional dos Trabalhadores.
O principal ato de Cuba aconteceu em Havana, capital do país, na Tribuna Anti-imperialista, local que fica em frente à Embaixada dos EUA na ilha socialista. Segundo os organizadores, cerca de 200 mil participaram da manifestação em defesa da Revolução e do socialismo. A celebração contou com a presença do presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel e de várias autoridades e lideranças do país.
Amigos de Cuba
Milhões de cubanos saíram as ruas nesse 1º de Maio | Foto: Cuba Debate
Mais de mil amigos de Cuba de 58 países também participaram do evento em apoio a Cuba socialista e de seus trabalhadores e trabalhadoras.
Direito de Cuba: Crônicas de uma pandemia | Arte: Kotter editorial
Por Sturt Silva
A tradutora brasileira Marcia Regina Choueri, que morou e trabalhou por sete anos em Cuba, lançou recentemente pela Kotter editorial o livro Direto de Cuba: crônicas de uma pandemia.
Segundo a editora, o livro é uma compilação de textos inicialmente divulgados em vídeos no canal Direto de Cuba no Youtube, que relatava acontecimentos na ilha socialista.
Além do canal e do livro, Márcia também foi a criadora do podcast Coisas de Cuba, disponível no Youtube e no Spotify.
"O livro é uma homenagem muito pessoal a Cuba e a sua Revolução, à garra e resistência do povo cubano, à incrível capacidade e inteligência do Comandante Fidel Castro, que criou a indústria de medicamentos e vacinas de Cuba - o processo completo, desde a pesquisa, até a produção e distribuição - e garantiu que esse incrível projeto resistisse ao período especial e ao constante assédio do bloqueio norte-americano. Essa capacidade de previsão salvou milhões de vidas durante a pandemia da covid-19. Fiz um grande esforço para publicá-lo, porque acho importante que essa história fique registrada.", afirma a escritora.
A 32ª Feira Internacional do Livro de Havana, maior feira de livros do mundo, foi realizada entre os dias 15 e 25 de fevereiro de 2024 na Fortaleza de San Carlos de La Cabaña, na capital cubana. O local foi construído no século XVIII para ser uma das barreiras de defesa da cidade de Havana contra ataques inimigos e saqueamentos piratas. La Cabaña foi declarada patrimônio mundial pela Unesco, juntamente com a parte histórica da capital, em 1982, ano em que foi realizada a primeira edição da feira do livro.
O Brasil foi o país convidado de honra neste ano. Organizada em conjunto pela Embaixada do Brasil em Cuba e o Ministério da Cultura, sob a liderança da ministra Margareth Menezes, a delegação brasileira contava com mais de 60 escritores, artistas e intelectuais, entre os quais, Conceição Evaristo, Frei Betto, Emicida e Ailton Krenak.
Após os dez dias de feira em Havana, o evento continua ao longo de todo o ano nas 15 províncias (estados) do país, em escolas, universidades, hospitais e penitenciárias. Em 2024, a 32ª edição contou com a participação de 45 países e a apresentação de mais de mil novos títulos literários. Cerca de três milhões de livros foram doados ou vendidos a preços variados e muitos podem ser baixados gratuitamente na internet. Com o tema “Ler é construir identidade”, a Feira Internacional do Livro de Havana promove a leitura como instrumento de formação da consciência individual e coletiva e do pensamento crítico autêntico.
Trabalhadores cubanos marcham em Havana | Foto: Luis De Jesús
Por Sturt Silva
Os cubanos e cubanas voltaram às ruas de Cuba nesta sexta-feira (5 de maio), em eventos pelo Dia Internacional do Trabalhador e pelos 205 anos de nascimento do fundador do socialismo científico, Karl Marx.
Os desfiles e atos foram convocados pela Central de Trabalhadores de Cuba e tiveram apoio e participação do governo socialista de Díaz-Canel, do Partido Comunista e de outras organizações da sociedade cubana.
Os atos aconteceriam em 1º de maio, mas foram adiados para esta sexta devido às condições meteorológicas desfavoráveis que provocaram chuvas intensas em todo país no último final de semana.
🇨🇺🚩Povo cubano nas ruas em defesa do socialismo e da Revolução, nesta sexta, 5 de maio!
Na primeira semana de abril comemora-se em Cuba, assim como na maioria dos países ocidentais, a Semana Santa. Segundo reportagem de Gabriel Vera Lopes, do jornal Brasil de Fato, 60% da população cubana é batizada na Igreja Católica.
A liberdade religiosa em Cuba é incorporada como um direito constitucional. A Carta Magna do país declara expressamente que "o Estado reconhece, respeita e garante a liberdade religiosa" e que "as diferentes crenças gozam de igual consideração". A discriminação com base em crenças religiosas é proibida e o país se declara um Estado secular, agindo independentemente de preceitos e doutrinas religiosas, afirma a matéria do Brasil de Fato.
Cuba tem 1.850 organizações religiosas reconhecidas e fazem parte delas cerca de 1,5 milhão de cubanos e cubanas.
Socialismo cristão
Para Claudia Morales Moreno, do Movimento de Estudantes Cristãos, "não há maior expressão de socialismo do que a obra de Jesus. De um sentimento social, de um sentimento de amor ao próximo, e assim é também o que o socialismo nos ensina. Querer ajudar o outro, acima de tudo, e este é o nosso exemplo de Jesus. Eu sempre digo que Jesus foi um socialista de seu tempo. Às vezes se diz que a religião não deve ser misturada com a política. Mas tudo é político, toda ação tem uma atitude política. Portanto, parece-me que o socialismo e a religião estão muito ligados".
Incluindo esta Folha, certas publicações descrevem o governo cubano como uma ditadura e os seus líderes históricos, bem como o atual presidente, Miguel Díaz-Canel, como ditadores (neste caso, não a Folha).
Esses e outros estereótipos injustos nascem nos EUA e difundem-se na imprensa mundial graças à grande influência deste país. As causas do fenômeno explicam também o cruel bloqueio que a ilha sofre durante 61 anos, apesar da rejeição da ONU. Essas punições são reações dos EUA à decisão de Cuba de ser independente e de estabelecer um sistema alternativo de justiça social e solidariedade, que não depende do poder do dinheiro e das armas.
A ditadura é o resultado do exercício ilimitado do poder por um governo em benefício das elites; a democracia, por outro lado, é governo pelo povo e para o povo. O que é o caso em Cuba?
Os fatos falam por si. Com a dissolução do anterior regime tirânico, a Revolução Cubana começou como uma democracia popular. Desde então, as mudanças foram múltiplas: o desemprego terminou; a extrema polarização econômica e social também; duas reformas agrárias beneficiaram os camponeses; foram criados um Exército e as milícias populares, que defenderam o país em muitas ocasiões e derrotaram os EUA durante a invasão da Baía dos Porcos. O Estado cubano instituiu sistemas de saúde pública e educação livres, universais e de alto nível, apoiados por um sector biotecnológico proeminente.
O cubano Arnaldo Tamayo Méndez foi o primeiro cosmonauta negro e o primeiro latino-americano a viajar ao espaço.
Em 18 de setembro de 1980, Tamayo era lançado da base de Baikonur (atual Cazaquistão), junto com o cosmonauta soviético Yuri Romanenko. Na ilha, o povo cubano acompanhava pela televisão o feito histórico.
Tamayo foi selecionado para participar do programa espacial Intercosmos, da então União Soviética (URSS). Depois de participar de uma rigorosa preparação, que chegou a mais de 1.500 horas de treinamento, integrou a missão Soyuz 38 que viajou em direção a base orbital Salyut 6. Durante uma semana, Tamayo executou experimentos técnicos e científicos.
Em 26 de setembro, após 124 órbitas circunterrestres, Tamayo e Romanenko retornaram à Terra em um pouso arriscado, realizado à noite.
Na época, a URSS desenvolvia um avançado programa espacial. Em 1961, o soviético Yuri Gagarin havia se tornado o primeiro ser humano a viajar pelo espaço. A cooperação entre URSS e Cuba possibilitou que, pela primeira vez, um cosmonauta de um país do Hemisfério Ocidental, que não dos EUA, participasse de uma missão espacial.
Diante do feito histórico, o Comandante Fidel Castro condecorou Tamayo com o título de Herói da República de Cuba e a Ordem Playa Girón. Em Moscou, o cosmonauta cubano recebeu a Ordem de Lenin e também foi nomeado Herói da URSS.
Multidão em Havana no dia 1º de maio | Foto: Brasil de Fato
Por Sturt Silva e Maria Lívia
“Por Cuba, Unidade e Compromisso” , “Cuba Vencerá”, “Preservar e aperfeiçoar o socialismo” e “Viva o 1º de Maio”, eram as mensagens escritas nas inúmeras faixas e cartazes que invadiram as ruas das principais cidades cubanas no último 1º de Maio, dia do trabalhador.
O ápice da festa aconteceu em Havana, capital da ilha socialista, no momento em que a multidão cantou A Internacional [Comunista] - Hino Universal dos Trabalhadores, onde reafirmaram o comprometimento com a Revolução e o sistema socialista, adotado democraticamente pela maioria da população.
O ex-presidente Raúl Castro e o Presidente da República, Miguel Díaz-Canel, marcaram presença em Havana. Já os outros líderes políticos do país participaram de atos nas grandes cidades, pelo interior do país.
Fidel Castro durante a Segunda Declaração de Havana | Foto: Prensa Latina
Por Sturt Silva
No dia 4 de fevereiro de 1962, mais de 1 milhão de cubanos se reuniram na Praça da Revolução na capital do país e aprovaram a Segunda Declaração de Havana após pronunciamento de Fidel Castro.
A Declaração foi uma resposta à expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA) durante a reunião da OEA em Punta del Este, Uruguai, em 31 de janeiro daquele mesmo ano, devido à pressão de Washington, que estava tentando isolar a nascente Revolução.
O texto expressava a vontade inabalável de autodeterminação do povo cubano e seu objetivo de construir o socialismo, apesar das agressões dos EUA.
Foi aprovada quase dois anos depois da Primeira Declaração de Havana, grande reação pioneira da Revolução contra ações imperialistas e anterior da declaração do caráter socialista, ocorrida em 16 de abril de 1961.
No dia anterior, em 3 de fevereiro de 1962, o Presidente dos Estados Unidos - John F. Kennedy - assinou a Ordem Executiva 3447, que formalizou o bloqueio contra à ilha revolucionária.
Cuba, uma pequena ilha socialista sitiada pelos Estados Unidos, está tomando medidas concretas para reorientar sua economia na luta contra a crise climática. É um exemplo que o mundo inteiro deveria levar a sério - sobretudo após o fiasco da COP26.
Embora Cuba seja responsável por apenas 0,08% da emissão global de CO2, essa pequena ilha caribenha é desproporcionalmente assolada pelos efeitos das mudanças climáticas. A frequência e a severidade dos eventos climáticos extremos — furacões, secas, chuvas torrenciais, enchentes — tem aumentado, causando danos no ecossistema, na produção de alimentos e na saúde pública. Se nada for feito para proteger as regiões litorâneas do aumento do nível do mar, mais de 10% do território cubano irá submergir até o fim deste século. Isso ameaça varrer do mapa cidades costeiras, poluir sistemas de abastecimento de água, destruir terras agricultáveis, destruir praias turísticas e forçar a realocação de um milhão de pessoas — cerca de 9% da população.
Entretanto, ao contrário de diversos outros países, onde a ação climática é sempre uma promessa para o futuro, em Cuba ações concretas estão sendo levadas adiante agora. Entre 2006 e 2020, vários relatórios internacionais identificaram a ilha como a líder em desenvolvimento sustentável. E na primavera de 2017, o governo cubano aprovou o Tarea Vida (“Tarefa de Vida”), seu plano de longo prazo para enfrentar a mudança climática. O documento identifica regiões e populações em risco, formulando uma hierarquia de “áreas estratégicas” e “tarefas” nas quais cientistas do clima, ecologistas e cientistas sociais trabalham em conjunto com comunidade locais, especialistas e autoridades para oferecer respostas a ameaças específicas. Planejada para ser progressivamente implementado em etapas, de 2017 a 2100, o Tarea Vida também incorpora ações de mitigação como a mudança para fontes de energia renovável e a aplicação legal de proteções ambientais.
No verão de 2021, fui para Cuba para aprender sobre o Tarea Vida e produzir um documentário para ser exibido durante a conferência internacional de mudança climática da COP26, em Glasgow [1]. Minha visita coincidiu com o surto de casos de COVID-19 na ilha, as medidas de saúde pública para redução do contágio, bem como os protestos de 11 de julho. Apesar dessas condições, nos movemos livremente por Havana, entrevistando cientistas sociais e do clima, formuladores de políticas públicas, líderes da Defesa Civil cubana, pessoas nas ruas e comunidades vulneráveis às mudanças climáticas.
No litoral de Santa Fé, em Havana, encontrei com um pescador que vivia com sua família em prédios abandonados. Ele descreveu como, quanto a água inunda o terreno, sua casa fica como um barco no mar. Apesar da ameaça, eles pretendem permanecer: “Essa casa pode ser reduzida a um único tijolo e não vou sair”, ele disse. A primeira “tarefa” na Tarea Vida inclui a proteção das comunidades vulneráveis através de realocação de habitações ou de assentamentos inteiros. O Estado cubano paga pela realocação, incluindo a construção de novas casas, serviços sociais e infraestrutura pública. Contudo, não é algo obrigatório, o que significa que os residentes devem estar envolvidos no processo de construção e de tomada de decisão. Também existem exemplos de comunidades que propõem suas próprias estratégias adaptativas, que as possibilitem permanecer na costa.
Tarea Vida é a culminância de décadas de regulações de proteção ambiental, da promoção de desenvolvimento sustentável e de investigação científica. No país, é concebido como uma nova base para o desenvolvimento, parte de uma mudança cultural e um processo mais amplo de descentralização de responsabilidades, poderes e orçamentos para comunidades locais. Aqui, nós vemos que as considerações ambientais são integrais às estratégias de desenvolvimento nacional de Cuba ao invés de uma preocupação lateral. A necessidade também é um motor do Tarea Vida; a mudança climática já afeta a vida na ilha. “Hoje, em Cuba, o clima do país passa por uma completa transição de características tropicais úmidas para um clima sub-úmido, no qual os padrões de chuva, disponibilidade de água, condições do solo e temperaturas serão diferentes”, explica Orlando Rey Santos, um consultor ministerial que lidera a delegação de Cuba na COP26. “Teremos que nos alimentar de um jeito diferente, construir diferente, nos vestir diferente. É muito complexo”.
Evento socialista em universidade cubana | Foto: Pedro Monzon
Por Umberto Martins e Osvaldo Bertolino no portal da CTB
Em uma longa entrevista, publicada no portal da CTB - Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - o Cônsul Geral de Cuba em São Paulo, Pedro Monzón, mostra as razões pelas quais recorrentes ofensivas dos Estados Unidos para sufocar a Revolução e reinstalar no país um regime capitalista subserviente a Washington são rechaçadas e têm fracassado ao longo da história.
A Revolução resgatou a dignidade do povo. Consumada em 1959, sob a liderança de Fidel Castro e Che Guevara, completa 63 anos no reveillon de 2022. Antes da vitória dos rebeldes a sedutora ilha caribenha era governada pelo ditador Fulgêncio Batista e mais parecia um grande bordel controlado pela máfia estadunidense, como sugere “O poderoso chefão (2)”, filme do célebre cineasta Francis Ford Coppola.
Conforme assinala o Cônsul, hoje em dia não existem moradores de rua e ninguém passa fome em Cuba, Saúde e Educação são direitos de todo o povo garantidos pelo Estado socialista, não podem ser exploradas como mercadorias. Por maiores que sejam as agressões e infâmias que contra ela são diuturnamente disparados pelos EUA e a mídia burguesa, a Revolução resiste enquanto a contrarrevolução fracassa a cada empreitada porque esta é a vontade soberana do povo cubano, que não se deixa levar pelo canto de sereia neoliberal, não se dobra ao tacão imperialista e não admite retrocesso.
Monzón também chamou a atenção para a liderança e a lição moral da China socialista na guerra à covid-19.
Leia a entrevista:
Presenciamos nesses dias uma intensificação da ofensiva imperialista dos EUA com o objetivo de destruir o regime socialista de Cuba. Um fenômeno que é recorrente, mas que se dá agora num período crítico no mundo e na América Latina, marcado pela pandemia, crise econômica e crise geopolítica, com notável aumento das tensões entre EUA e China. Então eu gostaria que você começasse comentando as recentes manifestações contrarrevolucionárias em Cuba e o envolvimento do imperialismo.
– Como você comentou, Cuba tem sido agredida pelos Estados Unidos desde o triunfo da Revolução em 1959. No dia 1º de Janeiro de 2022 completam-se 63 anos do triunfo. No início e em diferentes épocas fomos vítimas de agressões, que vão se intensificando e assumem diferentes formas, desde atos terroristas a invasões. Invasões como da Baia dos Porcos na Zona Sul da Ilha, na Península de Zapata, ataques a hotéis e pescadores e em Guantánamo, onde eles mantêm uma base naval e militar pela força desde finais do século XIX. E temos também o bloqueio econômico, que vem sendo intensificado.
Com Donald Trump o bloqueio se intensificou. Já o presidente anterior, Barack Obama, tomou algumas medidas efêmeras na segunda etapa de seu governo para relaxar um pouco o bloqueio e levar sua luta contra Cuba em outro terreno.
Tanto Obama, como Biden e outros presidentes norte-americanos, e o imperialismo Ianque de um modo geral, não aceitam a Revolução Cubana. Ou seja, Obama tentou outras ferramentas de inteligência para destruir a Revolução. E dedicou aproximadamente um ano a este tipo de estratégias.
Já Donald Trump adotou uma série de medidas mais drásticas. Durante seu governo foram editadas 243 medidas novas contra nosso país, além das já existentes. O presidente Joe Biden prometeu que continuaria na linha de Obama, mas na verdade tem reforçado as medidas anteriores de Trump e a retórica contra Cuba.
"No Brasil é costume as pessoas falarem que Cuba é uma "ditadura". O que podemos dizer disso?" Essa foi a pergunta que o jornalista Vitor Ribeiro, membro do Coletivo de Jornalistas e Comunicadores Amigos de Cuba, iniciou a entrevista com o Embaixador e Cônsul de Cuba em São Paulo, Pedro Monzón.
Para o diplomata cubano, a ideia que Cuba é um "ditadura" foi introduzida no mundo pelos EUA. Em Cuba houve sim uma ditadura, mas antes da Revolução de 1959. Foi no período de Batista (1952-58), tirania apoiado pelos estadunidenses. Com a Revolução Socialista, pela primeira vez na história, o povo cubano foi soberano.
Conquistas da Revolução
Pedro Monzón elencou seis pontos para sustentar que a construção do socialismo em Cuba é democrático:
Reforma agrária – com a Revolução de 1959, o governo deu poder sobre à terra para os camponeses.
Campanha de alfabetização – Cuba conseguiu erradicar o analfabetismo já nos anos 60, sendo o primeiro país da América Latina a alcançar tal feito. Foi o povo que alfabetizou o resto do povo analfabeto, lembra Monzón. E um governo que alfabetiza o seu povo está dando-lhe poder para que ele decida o destino da Nação.
Construção de um sistema nacional de educação – A educação cubana é de qualidade e não é só para a elite ou para um grupo, mas sim para todo povo. E é 100% gratuita e universal. O cubano tem esse direito: da creche à graduação.
Construção de um sistema de saúde de alto nível – Considerado como modelo para outros países, o sistema de saúde de Cuba desenvolveu a partir dos anos 80 o seu setor da biotecnologia, que é reconhecido internacionalmente, na produção de medicamentos, vacinas e outros fármacos. Cuba pode ser chamada de ilha da saúde.
Alto nível de igualdade no acesso às riquezas produzidas– As desigualdades sociais e econômicas não são críticas, ressalta Monzón. O país é seguro, a criminalidade é mínima e o tráfico de drogas não é um problema social. Não há repressão política, como tem nos países da América Latina e da Europa. O povo cubano, por exemplo, não conhece o que é o gás lacrimogêneo.
Fim da discriminação racial e de gênero– Para o Embaixador essas discriminações foram eliminadas de forma estrutural e dentro da lei.
Que ditadura arma seu povo?
No início da Revolução, o povo cubano recebeu armas e foi treinado para combater uma futura invasão estadunidense, que aconteceu em 1961 e foi derrotada em apenas 72 horas. Que ditadura arma seu povo,indaga o representante do presidente Díaz-Canel no Brasil.Com o tempo as armas passaram a ser tuteladas pelo estado, mas o povo continua sendo treinado militarmente de forma preventiva.
Solidariedade cubana
O povo cubano é valente e culto. Também cultiva valores solidários e humanistas, afirma Mozón.
Cuba revolucionária apoiou a luta em favor da descolonização da África na segunda metade do século XX e, ainda hoje, apoia a soberania dos povos oprimidos e colonizados.
Durante mais de 60 anos de Revolução, Cuba enviou cerca de 500 mil médicos, de forma voluntária, para dezenas de países. Estima-se que quase dois bilhões de pacientes tiveram contato com os doutores cubanos. Assim como na saúde, a ilha enviou milhares de educadores, conseguindo alfabetizar mais de 10 milhões de pessoas com o método “Sim, Eu Posso”.
Democracia socialista
O diplomata cubano defende o caráter democrático do socialismo de seu país. Para ele a democracia cubana não é perfeita, têm seus problemas, que deve ser melhorados e aperfeiçoados, mas dentro do sistema socialista.
Ele também afirmou que a democracia cubana é bem melhor do que a maioria das democracias que se têm no mundo.
O Partido Comunista, único, não interferem diretamente nas eleições. O povo é que propõem os candidatos para as eleições, nos bairros, nos Comitês de Defesa da Revolução. Qual quer cidadão cubano com serviços prestado à sociedade pode ser candidato, destaca o diplomata. E é deste processo que se elegem os representantes do povo nas assembleias, no parlamento, etc...
Os políticos cubanos (vereadores e deputados) não são renumerados, eles continuam com os salários de suas profissões de origem. Assim, como enfatiza Monzón, não há corrupção na política cubana, como vemos na maioria dos países ditos democráticos.
As eleições são livres e não tem influência do dinheiro. A maioria do povo comparece às urnas de forma voluntária.
Portanto, chamar Cuba de "ditadura" é uma grande ofensa para o povo soberano de Cuba, embora Pedro Monzón negara que tenha ficado ofendido quando Vitor Ribeiro fez essa provocação.
Cuba iniciou a vacinação contra covid-19 em crianças de 2 a 18 anos com as fórmulas Soberana 02, Soberana Plus e Abdala, todas as três produções cubanas.
A campanha será realizada em etapas de acordo com o ano escolar para viabilizar a volta às aulas presencial em um mês, mas nesta primeira semana todas as crianças e adolescentes do país receberão uma dose do imunizante.
Os primeiros serão os estudantes de 16 a 17 anos, para retomar as aulas presenciais no dia 4 de outubro. Em seguida, os alunos de 12 a 18 anos para iniciar aulas até o dia 8 de novembro. Já as crianças de educação primária também devem iniciar a vacinação neste mês para poder retornar à escola a partir de 15 de novembro.
Os ciclos de vacinação com a Abdala duram 28 dias e incluem três doses, já para quem recebe a Soberana 02 são aplicadas duas doses, com um reforço da Soberana Plus, num intervalo de 56 dias.
Ambas fórmulas cubanas possuem mais de 91% de eficácia comprovada contra o novo coronavírus.
Cuba é o único país da América Latina a desenvolver cinco vacinas próprias contra o vírus Sars-Cov2.
Até o dia 10 de setembro haviam sido aplicadas 16,1 milhões de doses, com 4,2 milhões de cubanos com o ciclo completo de imunização.
Os testes clínicos pediátricos foram realizados durante o mês de junho com 350 voluntários entre crianças e adolescentes.
"Os resultados obtidos entre a população pediátrica foram superiores em todas as variantes imunológicas em comparação à população adulta de 19 a 80 anos", detalhou em comunicado o Centro de Controle Estatal de Medicamentos, Equipamentos e Dispositivos Médicos (CEDMED).
O objetivo do governo cubano é imunizar toda a população a ilha até o final de 2021 e poder oferecer vacinas aos turistas. A partir de novembro, quando esperam ter 80% da população vacinada, a abertura de fronteiras começará de maneira gradual.
O jornalista Leonardo Attuch, diretor da Portal Brasil 247, promoveu um debate entre Breno Altman e Joana Salém sobre o que realmente está acontecendo em Cuba.
Os dois, que são especialistas em Cuba, falaram sobre: os protestos contra e a favor do governo socialista de Miguel Díaz-Canel, a economia socialista, o bloqueio econômico dos EUA e o papel da China e do Brasil no processo.
Joana Salém Vasconcelos é professora de História Contemporânea na Faculdade Cásper Líbero. Doutora em História Econômica pela USP (2020), Mestra em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP (2013) e Graduada em História pela USP (2010).
Ao rebater uma declaração do presidente estadunidense - que disse que os EUA podiam fazer uma intervenção humanitária em Cuba - a historiadora destacou que há mais de 50 milhões de pessoas passando fome (ou vivendo na pobreza) no interior dos EUA, ou seja 5 vezes a população de Cuba.
Diante dos protestos golpistas organizados pela direita em Cuba, com apoio dos EUA, manifestações em defesa do governo do presidente Miguel Díaz-Canel estouraram pelo país, ultrapassando fortemente os atos gerados pela direita.
Depois que o presidente do país foi à televisão e chamou o povo às ruas, no último domingo (11), diversas cidades realizaram atos em apoio ao socialismo e à Revolução Cubana.
Neste sábado (17) em Havana, antes mesmo do sol nascer, o povo já estava nas ruas para um ato pró-governo socialista, que contou com a presença do ex-presidente Raúl Castro, do herói cubano Gerardo Nordelo e do presidente Miguel Díaz-Canel. Os dois últimos discursaram no evento (veja no vídeo abaixo).
Na sua intervenção, o líder comunista condenou a campanha de ódio e a ingerência dos EUA em assuntos internos do país, denunciou os protestos violentos do últimos domingo e conclamou o povo cubano a defender a Revolução Cubana e o socialismo, afirmando que Cuba é de todos.
No último domingo, 11 de julho, assistimos a outro episódio da mais longa e complexa guerra da história americana, movida desde 1959 pelos Estados Unidos contra uma ilha caribenha que ousou confrontar os interesses da grande potência imperial.
Há quase 60 anos foi decretado um bloqueio financeiro e comercial sem paralelos na modernidade. Cuba sofre restrições dantescas no acesso ao crédito e aos mercados internacionais. Mesmo empresas de terceiras nações podem ser punidas pesadamente se fizerem negócios com a república rebelde.
Ao contrário de Cuba, que na pandemia ofereceu ao mundo serviços médicos, a Casa Branca enxergou nesse período catastrófico uma janela de oportunidade para tentar quebrar a revolução liderada por Fidel Castro. A crise sanitária, afinal, derrubava drasticamente as receitas internacionais com o turismo, principal fonte de recursos em dólar ou euro.
O país viu-se obrigado a recortar em mais de 30% suas importações, o que afetou o fornecimento de energia e a oferta de produtos básicos, obrigando o governo Díaz-Canel a adotar severas políticas de racionamento, com total prioridade para combater o novo coronavírus.
A ilha está entre as melhores performances mundiais no controle da doença, com taxas de transmissão e mortalidade muito abaixo de países absurdamente mais ricos. Basta comparar com a Bélgica, sede da União Europeia, que tem os mesmos 11 milhões de habitantes, mas registra 1.098.332 casos e 25.207 mortes até 15 de julho, contra 256.607 ocorrências e 1.659 falecimentos em Cuba.
Com um sistema público de saúde mundialmente reconhecido por sua eficácia, apesar dos obstáculos para aquisição de remédios e equipamentos, Cuba é a única nação latino-americana a ter desenvolvido suas próprias vacinas, cuja aplicação massiva começou há menos de 30 dias, em meio a um abrupto repique da contaminação depois que foram relaxadas certas proibições a viagens turísticas.
Sob essas condições dramáticas, irromperam protestos localizados, logo aproveitados por grupos opositores para impulsionar uma pretendida revolta popular, existente apenas em versões delirantes nas redes sociais ou de uma imprensa cheia de ódio contra o regime cubano.
As manifestações ocorreram sem repressão, limitada a atos de violência das frações de extrema direita ou de conspiração com inimigos externos. O presidente Díaz-Canel admitiu publicamente os problemas e assumiu compromisso de encontrar soluções, dirigindo-se imediatamente ao olho do furacão, a pequena San Antonio de los Baños, marco zero dos protestos, para dialogar com os próprios manifestantes.
Ele também chamou os defensores da revolução a ocupar pacificamente as ruas, o que ocorreu nos dias seguintes, deixando claro que Cuba não irá responder com rendição ou lágrimas no rosto.