domingo, 4 de agosto de 2019

Vítimas do maior acidente radioativo do Brasil receberam tratamento em Cuba

Terezinha Nunes Fabiano e sua filha Natasha, vítimas do acidente | Foto: Felicia Hondal
Por Raúl Capote no Granma

Em 13 setembro de 1987 ocorreu em Goiânia, capital de Goiás, o que foi considerado o pior acidente radioativo da história fora de uma instalação nuclear.

Dois catadores de lixo, em busca de sucata para vender, entraram em um hospital abandonado e encontraram o que lhes pareceu uma estranha máquina, a desmontaram e a levaram para uma carroça. Uma vez em casa, utilizando chaves de fenda abriram a tampa de chumbo que lacrava o aparelho, na realidade um equipamento de radiografia, e extraíram um cilindro do interior, depois foram a um desmanche com a intenção de vendê-lo.

O dono do desmanche ficou com o artefato, dias mais tarde, entrou no local onde tinha guardado o cilindro e viu que um “formoso brilho azul” brotava da cápsula, pensou que se tratava de algo sobrenatural e a levou para sua casa.

O homem repartiu entre familiares e amigos fragmentos do material que se encontrava no interior do objeto, um material fácil de triturar, que se convertia em pó, um pó brilhante. Tratava-se de cloreto de césio enriquecido com isótopo radiativo, césio 137.

Logo, muitas pessoas adoeceram. Ao redor de uma dúzia foram levados a um dos hospitais de Goiânia. Ao todo, mais de 110.000 pessoas foram examinadas, delas 249 tinham níveis significativos de material radiativo em seus corpos, centenas de pessoas apresentavam contaminações leves e tiveram que permanecer em abrigos especiais.

Cuba responde

Cinco anos após o acidente, em uma das atividades paralelas da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, ECO-92, no Rio de Janeiro, – mais conhecida como Cúpula da Terra–, Terezinha Nunes Fabiano, presidenta da Associação das Vítimas, recebeu a proposta de Fidel de atender os afetados pela contaminação radiativa.

“Conhecíamos a experiência cubana atendendo aos meninos de Chernobyl, muita gente duvidava porque tinha sofrido tantas decepções, mas quando no Brasil Fidel carregou a minha filha Natasha e lhe deu um beijo, me dei conta de quanta bondade tinha em seu olhar…e confiei mais que nunca”, disse então Terezinha Nunes.

Foi na histórica Cúpula da Terra onde o Comandante em Chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz, pronunciou aquelas proféticas palavras:

“Uma importante espécie biológica está em risco de desaparecer pela rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais de vida: o homem”.

Dezenas de afetados pela radiatividade receberam atenção médica gratuita em cumprimento do protocolo de colaboração científica com Brasil, assinado por Fidel durante ECO-92; as vítimas do acidente compartilharam o Acampamento de Pioneiros José Martí de Tarará com 116 meninos ucranianos que sofriam as consequências da catástrofe de Chernobyl, com um grupo de crianças equatorianas e com uns 200 cubanos asmáticos e diabéticos sob tratamento para esses sofrimentos.

Em outubro de 1992 regressaram ao Brasil os pacientes uma vez concluído o programa de atenção e tratamento recebido na Ilha, viajaram acompanhados de uma delegação de especialistas cubanos que informaram às autoridades sanitárias brasileiras, das conclusões diagnósticas e recomendações, resultado de sete semanas de exames a que tinham sido submetidos.

O pessoal cubano da saúde demonstrou uma vez mais seu profissionalismo, que foi altamente apreciado pelos especialistas brasileiros, mas, sobretudo, demonstraram o grande valor humano, a entrega e o espírito solidário que lhes caracteriza, fruto de sua formação revolucionária e do exemplo de Fidel.

Terezinha Nunes, que viajou a Cuba com suas três filhas, para receber diagnóstico e tratamento, expressou ao partir: “Vou-me com o coração dividido, porque agora tenho duas pátrias, Cuba e Brasil”.
Ferro-velho que ocorreu o acidente | Foto: CNEN 
Epílogo de uma tragédia

Quatro pessoas faleceram e 249 pessoas receberam altos índices de radiação e hoje padecem de múltiplas doenças, sobretudo câncer. As pessoas afetadas pela radiação no incidente, até o dia de hoje sofrem de discriminação.

Tradução: Comitê Carioca.

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