sábado, 26 de novembro de 2016

"Fidel Castro foi um democrata revolucionário", defende biógrafa

'História da Revolução Cubana é a de Fidel'


Por Vanessa Martina Silva no Opera Mundi

Fidel Castro sobreviveu a onze presidentes dos Estados Unidos e a mais de 600 tentativas de assassinatos. Viu cair o muro de Berlim, acabar a Guerra Fria e a União Soviética. Enterrou companheiros queridos como Che Guevara e Célia Sánchez. Acompanhou de perto o processo de integração da América Latina. Celebrou a libertação dos cinco antiterroristas cubanos por parte dos Estados Unidos e a retomada das relações entre o vizinho do norte e a linha caribenha. Dizem que os comunistas duram muito -  ele viveu para provar isso. Morreu às 22h29 desta sexta-feira (25/11), aos 90 anos. O anúncio da morte foi feito por seu irmão, Raúl Castro em pronunciamento na TV estatal.

Atleta, disciplinado, Fidel teve durante sua vida uma relação próxima com a morte. A jornalista e escritora Claudia Furiati, autora da biografia consentida do líder cubano, conta, em entrevista a Opera Mundi, que ele “sempre a provocou. As rupturas na vida dele foram marcadas por sua ameaça. Ele a provocava e ela não o alcançava. Foi um épico, um grande protagonista que sempre teve como antagonista a morte”.

Amigo do cubano, o escritor e jornalista Eduardo Galeano, falecido no início de 2014, observou em seu livro “Espelhos (Uma História Universal)” que “não foi para entrar para a história que Fidel ofereceu o peito às balas quando veio a invasão, que enfrentou furacões de igual a igual, de furacão a furacão (…). Seus inimigos não dizem que esse feito [a Revolução Cubana] foi fruto do sacrifício de seu povo, mas também obra da obstinada vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre lutou pelos perdedores”.

“A história da Revolução Cubana é a história de Fidel”, diz Furiatti. A escritora, que morou cinco anos na ilha em meio aos nove que levou para finalizar o livro, diz que Cuba não tem “uma história perfeita, mas é um país que tem uma história digna e deve muito disso a Fidel”.
Mito

A história de Cuba da revolução até a atualidade desperta curiosidade, paixões e ódio. O mesmo se reflete na trajetória do ex-presidente que esteve 49 anos à frente do governo do país. “Na montanha, sofre-se mais de sede quando o cantil está vazio. Adquiri o hábito de não tomar água até poder reabastecê-lo”. A última frase do livro de Furiatti, reflete a perspicácia do biografado.

Ela não considera, no entanto, que ao exemplo de José Martí - mártir da independência cubana - Fidel será convertido em um mito após sua morte. “Hoje vivemos em outro tempo, em que a mitificação ou mistificação já não cabem”, observa Furiatti.

Na visão da autora, diferentemente também do que ocorreu com o argentino-cubano Ernesto Che Guevara, que teve uma morte trágica, Fidel terá outro tratamento histórico, uma vez que pôde “amadurecer a imagem do revolucionário. Ele terminou a vida como uma pessoa aposentada. O revolucionário fez parte do passado, o que fará com que a mitificação seja amenizada”.

Estrategista

“O lado estratégico - militar e político - faz dele um ser singular na história contemporânea”, considera Furiati. Questionada, no entanto, se Fidel teria sido melhor político ou estrategista, a escritora observa que ele se saiu bem em ambas as frentes: “dificilmente você tem uma pessoa com a estatura militar e estratégica que ele teve. E essa habilidade ele passou aos companheiros que fez comandantes. Sobre o lado estratégico-militar, a Serra Maestra fala por si só”, ressalta.

Já a estratégia política, conta, “vem desde a faculdade, quando foi ganhando hegemonia dentro de grupos. Ele sempre teve uma grande habilidade de saber escutar, saber conversar. Se há alguém que foi tolerante a vida toda foi Fidel. Conversou desde com os esquerdistas ortodoxos até com os mais direitistas. Mas tolerância não tem a ver com incoerência [política]”.

Fidel sempre esteve na vanguarda: “quando o bloco socialista ruiu, Fidel fez várias análises. Tinha uma grande capacidade de reflexão, sempre em sintonia com a ação. A capacidade matemática dele é muito grande: o que o ajudou sempre a equacionar os fatos e tomar a decisão mais acertada. Não perder o tempo, o time. Assim sempre teve tendência de vanguarda, de tomar decisões antes que as coisas complicassem”.

Tolerância e repressão

Apesar do forte caráter humanista com que é descrito em todo o livro, um dos pontos mais controversos da biografia do líder revolucionário é o tratamento destinado pelo governo cubano a homossexuais, uma vez que muitos foram perseguidos.

A repressão na ilha foi maior no começo da Revolução, reconhece Furiati. “Fidel chegou a fazer um discurso sólido dizendo: dentro da Revolução tudo, fora, nada. Então a orientação sexual também tinha que estar ligada ao processo revolucionário, o que significava determinado tipo de comportamento: moralista, com família bem constituída, não pode ser ‘desajustada’. Homossexual era visto como ‘desajustado’, prestes a ser dissidente, e que não agia dentro dos padrões da ordem”, revela.

As perseguições à oposição também são atribuídas ao líder. O que Claudia Furiati contesta: “Quem foi perseguido ao longo do tempo? Pessoas que estavam ligadas a interesses de pessoas de Miami ou da Espanha. Que recebiam alento econômico dessas pessoas. Os conspiradores”. E agrega: “quando se observa um grupo que se organiza para conspirar com apoio estrangeiro, então são vistos como uma dissidência que tem que ser brecada”.

E ressalta: “durante todo o tempo que vivi em Havana, eu ouvi de pessoas que são leais à nação muitas críticas ao sistema e elas não eram perseguidas. Mas não iam além de uma crítica intelectual. (…) Nunca vi uma pessoa ‘chapada’ [alienada]. Eles leem de tudo e têm visão crítica, mas nem por isso conspiraram contra o governo. As visões diferentes nunca foram questionadas ou perseguidas”.

E ressalva: “é preciso observar como se dá o processo, para não cair no maniqueísmo. Eu atribuo o fato de as pessoas chamarem Fidel de ditador como contrapropaganda. A classificação de ditador é simplista porque ele sempre teve outras facetas, inclusive muito humanistas, que a grande imprensa sempre fez questão de ignorar. Ele lutou pela libertação de povos oprimidos”.

Filho da aristocracia cubana, Fidel “tentou compor com a burguesia nacional incipiente, com classe média trabalhadora, criar uma política nacionalista sem afastar a população. Mas eles não viram outra alternativa para recuperar a nação e salvar a população de um determinismo de ser submetido aos EUA e à máfia eternamente. Era ser eternamente quintal dos EUA ou partir pra tudo. Mas não fizeram [os fuzilamentos] porque eram maus, e sim porque tinham uma visão mais maquiavélica. Decapitaram pessoas que tinham roubado, matado, perseguido”, defende.

Liberdade de imprensa

“Não é uma contradição que a imprensa não seja livre e sim uma estratégia” no caso de Cuba, observa. Isso foi muito pensado, aponta a escritora. “Os 12 jornais que existiam foram para o exílio. Se fundou então uma imprensa ligada ao projeto revolucionário. Gabriel García Márquez chegou a ser ligado à [agência cubana] Prensa Latina”. Essa imprensa, no entanto, era “ligada à esquerda, com jornalistas ligados a esse processo. Uma imprensa engajada com conotação política”.

Ao ser questionada se passado o processo revolucionário não haveria a possibilidade de abrir margem para outras visões na imprensa, a biógrafa avalia que “essa é uma visão que não existiu. O que primava era uma visão política. Estão aos pés dos EUA. No Caribe, o único país que não cedeu aos EUA foi Cuba”.

Além disso, “todos os programas segurança nacional dos EUA tinham como premissa invadir Cuba, encontrar maneira de desestabilizar o governo, matar Fidel. Essa ideia, este fato foi a diretriz de todo o processo. Não havia como ceder, abrir um pouco a imprensa, deixar a oposição avançar. Se Fidel pudesse ter aberto mais, o faria. Se acompanhar a história dele, isso ocorreu não porque ele gostava de ser tirano”.

Biografia

O ex-segurança de Fidel Juan Reinaldo Sánchez pediu ajuda ao jornalista francês Axel Gyldén para escrever "A face oculta de Fidel Castro", na edição em português. Após trabalhar por 17 anos para o líder cubano, Sánchez conta no livro que Fidel gozava de uma vida de luxo e ostentação enquanto a maior parte da população era submetida à pobreza.

A autora - que teve seu livro traduzido para dez idiomas: espanhol, inglês, grego, italiano, francês, alemão, russo, chinês, árabe e japonês – desconfia do trabalho do francês: “eu desconfio dessa biografia porque é emocional e pessoal, não tem consistência de investigação, nem caráter investigativo”.

Além disso, ela sugere ainda que “se perguntar para brasileiros que conviveram com Fidel, que foram à casa dele, como Frei Betto, verá que ele não viveu na pobreza, claro, mas modestamente, em uma casa em que come comida normal, sem luxo. Poderia ter mais luxo, mas nunca teve. Ele ainda menosprezou a origem da família, que é de latifundiários. Ele e os irmãos também, com a única exceção da Juanita, irmã que vive no exílio e esteve ligada à dissidência”.

E provoca: “acho que o autor deve ter ganhado uma grana para escrever esse livro. Ele fez um bom pé de meia por bons anos. Essa é minha opinião sobre essa biografia”.

Fidel Castro

Ele teve “várias facetas. Não considero que tenha sido o tempo todo como a grande mídia diz. Ele foi um democrata revolucionário. Ou um democrata radical”.

“Fidel não pensava sobreviver muito tempo quando assumiu na juventude a rebeldia. (…) Deixou de ser o afoito dono da verdade: conheceu a contenção de quem viu grandes expectativas se desmoronarem. Com passos largos, aprendeu a paciência. E diz que começaria tudo de novo, com a meta de um atleta olímpico, sonhando ‘combater até o último dia, como um soldado de fila’” (Fidel Castro – Uma Biografia Consentida”, Claudia Furiati)”.

O livro foi escrito com base em pesquisas e entrevistas, mas a obra de 804 páginas, dividida em dois tomos, não traz o ponto de vista dele, mas sobre ele e o que viveu, escrito de um ponto de vista meu”, aponta a escritora, que esteve com o ex-presidente cubano quatro vezes ao longo do processo de confecção do livro.

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