terça-feira, 11 de novembro de 2025

Brasil e Cuba peitam EUA na cúpula da Celac contra retorno da Doutrina Monroe

Lula durante a IV Cúpula CELAC–União Europeia na Colômbia | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Por Lucas Toth no  Vermelho 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste domingo (9) que “a ameaça do uso da força militar voltou a fazer parte do cotidiano da América Latina e do Caribe” e advertiu sobre o “reciclamento de velhas manobras retóricas para justificar intervenções ilegais”. 

A declaração foi feita durante a IV Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da União Europeia (UE), encerrada em Santa Marta, na Colômbia, com uma declaração conjunta que reafirma a região como zona de paz.

O discurso de Lula ocorreu em meio à escalada militar dos Estados Unidos contra o governo venezuelano de Nicolás Maduro. 

Desde agosto, a ameaça imperialista mobiliza porta-aviões, destróieres e aviões de patrulha no mar do Caribe, sob o argumento de combater redes internacionais de narcotráfico. As operações já deixaram dezenas de mortos e provocaram a destruição de embarcações na região.

Lula criticou a presença militar estrangeira no hemisfério e alertou que “democracias não combatem o crime violando o direito internacional”. 

O presidente defendeu que a segurança deve ser tratada como “um dever do Estado e um direito humano fundamental” e que nenhuma nação é capaz de enfrentar sozinha o crime transnacional. 

“Nenhum país pode enfrentar esse desafio isoladamente; é preciso agir em cooperação”, disse.

A 4ª Cúpula Celac-UE reuniu 32 países latino-americanos e caribenhos e 27 nações europeias em um momento de forte tensão diplomática com os Estados Unidos. O encontro foi sediado na cidade de Santa Marta, na Colômbia que celebra 500 anos de fundação e se converteu, durante dois dias, no epicentro político do hemisfério.

O presidente colombiano Gustavo Petro, anfitrião da cúpula e presidente pro tempore da Celac, apresentou o texto final da declaração conjunta e destacou a necessidade de “soluções comuns” em vez de “imposições unilaterais”. 

“Insistimos, persistimos e aprofundamos o critério de que é a multilateralidade que permite que nações diversas se unam para solucionar problemas comuns”, afirmou.

A declaração de 52 pontos reafirma o compromisso com o multilateralismo e condena o uso da força como instrumento de política internacional. O texto não menciona os Estados Unidos, mas faz referência à necessidade de manter o Caribe como zona de paz.

“Reiteramos nossa oposição ao uso ou à ameaça do uso da força e a qualquer ação que não esteja em conformidade com o direito internacional e a Carta das Nações Unidas”, diz o documento, assinado por 32 dos 33 membros da Celac e pelos 27 da UE.

A Argentina, governada por Javier Milei, foi o único país da Celac a não assinar o documento final, rompendo com a posição majoritária latino-americana. Segundo a chanceler Diana Mondino, Buenos Aires preferiu “manter relações construtivas com todos os países” e evitar “interpretações que soassem como críticas indiretas aos Estados Unidos”. 

Recentemente, o presidente norte-americano anunciou um pacote de ajuda financeira de US$ 20 bilhões à Argentina, destinado a reforçar as reservas do país e aliviar a pressão cambial sobre o peso. 

O gesto é interpretado como contrapartida política ao alinhamento de Milei com Washington, em um momento de crescente isolamento diplomático do governo argentino na América Latina. A abstenção isola a Argentina dentro do bloco e é lida por diplomatas como um gesto de completo alinhamento à Casa Branca em meio à escalada militar de Trump no Caribe.

Brasil e Cuba reagem à Doutrina Monroe

O pronunciamento de Lula foi acompanhado pelo vice-presidente de Cuba, Salvador Valdés Mesa, que denunciou as tentativas de “reativar a Doutrina Monroe” e exortou os países latino-americanos a “atuarem para deter a agressão e a infiltração militar”. 

O cubano expressou solidariedade ao governo colombiano, alvo de sanções impostas por Trump após as críticas de Petro às operações militares no Caribe, e condenou “o genocídio militar perpetrado por Israel em Gaza”, classificando a ofensiva como uma crise humanitária sem precedentes.

Para Lula e Valdés Mesa, a reativação de estratégias intervencionistas representa uma ameaça à soberania regional. Ambos defenderam o fortalecimento da cooperação entre os países da América Latina e o enfrentamento do crime organizado sem violar o direito internacional. 

“A democracia sucumbe quando o crime organizado corrompe as instituições, invade os espaços públicos e destrói famílias”, afirmou o presidente brasileiro, ao defender o rastreamento do financiamento do crime e o combate ao tráfico de armas.

Petro fala em democracia global e Costa reforça diálogo birregional

O colombiano Gustavo Petro defendeu a construção de uma “democracia global baseada na diversidade”, argumentando que “uma humanidade unânime é uma humanidade morta”. Segundo ele, o diálogo entre Celac e União Europeia deve servir de modelo para um novo tipo de cooperação entre civilizações.

Do lado europeu, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, descreveu a cúpula como “uma mensagem clara ao mundo” e afirmou que o encontro “reafirma a aposta no diálogo sobre a divisão, e na cooperação sobre a confrontação”. 

Costa destacou que o diálogo birregional fortalece uma visão compartilhada de mundo baseada na democracia, nos direitos humanos e na justiça social.

Além da declaração política, a União Europeia anunciou um novo impulso ao programa Global Gateway, com 31 bilhões de euros em investimentos em mais de 100 projetos na América Latina e no Caribe. 

Entre as iniciativas, estão a expansão da conectividade digital via satélite, a integração de redes elétricas regionais e a criação de uma rede de supercomputadores que ligará os dois continentes. 

Também foram firmados dois pactos específicos: uma Aliança para a Segurança Cidadã, voltada ao combate ao crime organizado, e um pacto sobre economia do cuidado, destinado ao intercâmbio de políticas sociais.

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