sábado, 11 de setembro de 2010

A Revolução iluminou os esquecidos.... Silvio Rodrigues,

O mais popular cantor cubano, Silvio Rodrigues, faz a defesa da Revolução, com uma clarividente auto-crítica e convida a todos a gritar: Abaixo o Bloqueio!

Convite
por Silvio Rodrigues
Tradução: Robson Luiz Ceron - Blog Solidários

Creio que a Revolução Cubana dignificou nosso país e os cubanos. E que o Governo Revolucionário tem sido o melhor governo da nossa história.

Sim, antes da Revolução, Havana estava muito mais pintada; os buracos eram raros; e uma caminhada, rua a rua, revelava lojas cheias e iluminadas. Mas, quem comprava nessas lojas? Quem poderia caminhar com verdadeira liberdade naquelas ruas? Naturalmente, aqueles que "tinham com que" em seus bolsos. Os outros: a ver vitrines e sonhar, como minha mãe, como nossa família, como a maioria das famílias cubanas. Por aquelas avenidas fabulosas só passeavam os "cidadãos respeitáveis", bem considerados, em primeiro lugar, por suas aparências. Os mendigos, os esfarrapados, quase todos negros, tinham que fazer desvios, porque quando um policial os via, em alguma daquelas ruas "decentes", com cacetadas os sacavam de lá.

Isso eu vi com meus próprios olhos, de uma criança de 7 ou 8 anos, e vi até que eu tinha 12 anos, quando a Revolução triunfou.

"Por várias vezes, víamos passar marines caindo de bêbados, buscando prostitutas e mexendo com as mulheres do bairro..."

Na esquina da minha casa havia dois bares, um deles, às vezes, em vez de jantar, tomávamos um batido. Por várias vezes, víamos passar marines caindo de bêbados, buscando prostitutas e mexendo com as mulheres do bairro. Um jovem vizinho, que saiu para defender a sua irmã, foi atirado ao chão, e quando a polícia chegou, quem foi levado? Os abusadores? Não. A pontapés, levaram aquele jovem universitário que, logicamente, depois se destacou nas manifestações estudantis.


Ali estão as fotos de um marine urinando, sentando na cabeça da estátua de Martí, no Parque Central de nossa Capital.

Isso era Cuba, antes de 59. Pelo menos, assim eram as ruas do centro de Havana que eu vivia diariamente, no distrito de São Leopoldo, ao lado de Dragones e Cayo Hueso. Agora estão destruídas, fere-me ir lá, porque é como ver as ruínas de minha própria infância. Eu canto em "Trovador antiguo", como pudemos chegar a semelhante deterioração? Por muitas razões. Muita de nossa culpa por não ver as árvores, extasiados pela floresta, mas também, por culpa daqueles que querem ver voltar os marines urinando na cabeça de Martí.

Eu me recuso a desistir dos direitos fundamentais que a Revolução trouxe para o povo. Primeiro de tudo, a dignidade e a soberania, e também a saúde, educação, cultura e idade honrosa para todos.

Concordo em reverter os erros, banir o autoritarismo e em construir uma democracia socialistas sólida, eficiente, com um desempenho perfeito, que se garantisse a si mesma. Eu me recuso a desistir dos direitos fundamentais que a Revolução trouxe para o povo. Primeiro de tudo, a dignidade e a soberania, e também a saúde, educação, cultura e idade honrosa para todos. Eu gostaria de não descobrir o que está acontecendo no meu país, pela imprensa exterior, cujos enfoques trazem não pouca confusão. Gostaria que melhorasse muitas coisas que eu disse e outras não.

Eu gostaria de não descobrir o que está acontecendo no meu país, pela imprensa exterior,,,

Mas, acima de tudo, não quero voltar àquela ignomínia, aquela miséria, aquela falsidade de partidos políticos, que quando ganhavam o poder se entregavam ao maior lance. Tudo aquilo acontecia com amparo na Declaração dos Direitos do Homem e da Constituição de 1940. A experiência pré-revolucionária cubana e em muitos outros países, demonstra o que importa direitos humanos nas democracias representativas.

Muitos daqueles que hoje atacam a Revolução, foram educados por ela. Profissionais imigrantes, que comparam forçosamente as condições ideais da "culta Europa", com a de Cuba sitiada. Outros, mais velhos, que talvez chegaram a "ser algo", graças à Revolução, hoje se exibem como ideólogos pró-capitalistas, estudiosos das Leis e da História, disfarçados de trabalhadores humildes.

Pessoalmente, eu não suporto os “vira-casacas” fervorosos; estes arrependidos, com seus cursinhos de marxismo e tudo, que eram mais papistas que o Papa e agora são seu próprio reverso. Não lhes desejo mal, a ninguém se deseja, mas tal inconsistência me deixa enojado.

A Revolução ... iluminou os esquecidos.

A Revolução, como Prometeu (devo-lhe uma canção com esse nome), iluminou os esquecidos. Porque em vez de dizer ao povo: acreditem, lhes disse: leiam. Portanto, como o herói mitológico, querem fazê-la pagar por sua ousadia, amarrando-a em um cume distante, onde um abutre (ou uma águia imperial) irá devorá-la as entranhas para sempre. Eu não nego os erros e os voluntarismos, mas eu não sei esquecer o apelo do povo da Revolução contra os ataques, que têm usado todas as armas para ferir e matar, com os mais poderosos e sofisticados meios de comunicação (e distorção) de idéias.

Eu nunca disse que o bloqueio tem toda a culpa por nossos infortúnios. Mas, a existência do bloqueio não nos deu a oportunidade de medirmos a nós mesmos.

Eu gostaria de morrer com as responsabilidades de nossos infortúnios bem esclarecidos.

Por isso, convido todos aqueles que amam Cuba e desejam a dignidade dos cubanos, a gritar comigo agora, amanhã, em toda parte: Abaixo o bloqueio!

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