sexta-feira, 18 de março de 2011

No Haiti, Aristide agradece Cuba: “Quem sabe quantos teriam morrido sem os irmãos cubanos"


Instantes após chegar ao Haiti, o ex-presidente Jean Bertrand Aristide fez seu primeiro discurso, diante das centenas de pessoas que o esperavam. No pronunciamento – feito em francês, inglês, no dialeto sul-africano zulu, e em espanhol – ele defendeu a inclusão social como chave para os problemas que os haitianos têm enfrentado nos últimos anos.

Além das dificuldades encontradas para reparar os danos causados pelo terremoto de janeiro de 2010, recuperar-se do surto de cólera e solucionar uma crise política se tornaram outros desafios do país caribenho.

“Estou feliz por estar aqui com todos vocês, com os jovens da nova geração que querem melhor qualidade de vida, de educação, sem exclusão”, afirmou Aristide, que passou sete anos fora de seu país, exilado na África do Sul.“O problema no Haiti é a exclusão, e a solução, a inclusão. Hoje não há nem dois dólares para cada um dos 11 mil haitianos. Esse é o resultado da exclusão. Por isso estou aqui, por isso viemos dar nosso apoio”, completou ele, citado pela rede multiestatal Telesur.


No discurso, disse também que “nós haitianos temos muitas riquezas, estamos aqui para levar a paz a todos os lugares, todo o tempo, para que a violência termine”.

Aristide chegou à capital haitiana, Porto Príncipe, às 9h19 (horário local, 11h19 de Brasília) em um avião cedido pelo governo sul-africano. Ele estava acompanhado de sua esposa, suas duas filhas e do ator norte-americano Danny Glover.

O ex-presidente agradeceu os médicos cubanos pela ajuda oferecida durante o surto de cólera, uma das consequências do terremoto, que destruiu as já precárias condições de saneamento básico. “Quem sabe quantos teriam morrido sem os irmãos cubanos. Oxalá a luz dos irmãos cubanos possa ser o guia para outros [povos] no mundo”.

A Brigada Médica cubana atua no Haiti há 12 anos, mas intensificou sua atuação durante o surto, iniciado em outubro do ano passado. Segundo dados oficiais, pelo menos 4.700 pessoas morreram de cólera, mas o trabalho dos cubanos ajudou mais de 70 mil haitianos contaminados.

Crise política

Aristide retorna a seu país dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais e legislativas. Disputarão a presidência o cantor Michel Martelly e a ex-primeira-dama Mirlande Manigat.

O segundo turno das eleições presidenciais ocorrerá depois de a OEA (Organização dos Estados Unidos) ter constatado a existência de fraudes na primeira etapa do processo eleitoral, que foi seguido por violentos protestos.

Diante da instabilidade política, os Estados Unidos pediram que Aristide adiasse seu retorno, temendo que ele possa influenciar no processo eleitoral.

Aristide recebeu de volta seu passaporte diplomático no mês passado, e seu advogado disse que ele gostaria de voltar rapidamente ao Haiti para não correr o risco de que o vencedor da eleição presidencial revertesse a decisão de permitir seu regresso.

O ex-ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, conhecido como Baby Doc, também voltou recentemente ao país. Ele agora está sendo processado por tortura e crimes contra a humanidade.

Governo e exílio

Em 1990, quatro anos após a queda da ditadura do Baby Doc foram realizadas eleições livres. Ex-padre católico salesiano e com uma campanha eleitoral que defendia um programa de governo popular, Aristide foi eleito presidente com 70% dos votos.

No início de sua vida política, quando dirigia paróquias nos subúrbios da capital Porto Príncipe, tornou-se umas das figuras de destaque da luta contra a ditadura dos Duvalier.

Seu mandato, entretanto, durou pouco; em setembro de 1991, ele foi deposto sob acusações de corrupção, arbitrariedades e violências pelo general Raoul Cédras, dando o início a mais um regime ditatorial militar de direita.

Após três anos vivendo no exílio, Aristide voltou ao país com apoio dos Estados Unidos em 15 de outubro de 1994 para terminar seu mandato. No dia 7 de fevereiro de 1996, René Gacia Préval, eleito por voto direto, iniciou seu governo, permanecendo no poder até 7 de fevereiro de 2001.

Quem o sucedeu foi, novamente, Jean-Bertrand Aristide. Este, ao assumir, adotou uma política externa de aproximação de governantes de esquerda, como o presidente venezuelano Hugo Chávez e o cubano Fidel Castro.

Em 2004, Aristide deixou o cargo, deposto novamente por um golpe militar, liderado pelos mesmos que haviam tomado o poder em 1991. Segundo Aristide, sua oposição, com respaldo dos Estados Unidos, o sequestrou e o exilou, obrigando-o a renunciar. 

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