segunda-feira, 19 de março de 2012

Cuba hoje: o sistema socialista é intocável


Fonte: VERMELHO

Na principal conferência do 17º Encontro Nacional de Solidariedade a Cuba, realizada neste mês de março em Oaxaca, México, o intelectual cubano Fernando Martínez Heredia falou sobre a situação atual de Cuba e suas perspectivas, e explicou as mudanças que estão sendo realizadas na ilha caribenha, ressaltando a vigência dos princípios da Revolução e seus objetivos socialistas. Leia a íntegra.

Antes de tudo, quero expressar meu agradecimento aos organizadores que tanto trabalharam para que se tornasse realidade este belo 17º Encontro Nacional de Solidariedade com Cuba e aos habitantes de Oaxaca que tanto contribuíram para isso. Quero saudar as mexicanas e os mexicanos que vieram de tantos lugares do país, meus compatriotas da Embaixada e do Instituto Cubano de Amizade com os Povos. E saudar a presença do companheiro embaixador de Cuba, Manuel Aguilera de la Paz, das autoridades e das personalidades sociais e políticas que aqui se reuniram. O Encontro constitui mais um passo à frente da solidariedade entre os povos, qualidade humana que cresce, e que é um anúncio do porvir que a humanidade terá que conquistar.

A chave geral do tema que devo abordar hoje está, para Cuba como para a maioria dos povos, na existência do colonialismo, do neocolonialismo e dos grupos de exploradores e dominantes que em muitos países são seus cúmplices e aliados, e está nas resistências e rebeldias dos oprimidos contra o sistema de dominação que o capitalismo tem desenvolvido e que se erigiu na América desde há cinco séculos. 

Esse processo histórico tem sido a causa do chamado subdesenvolvimento, do mau governo como regra nesses países e de todas as agressões que os imperialistas consideram “necessárias” contra resistentes e rebeldes. O bloqueio e as agressões sistemáticas dos Estados Unidos contra Cuba libertada são um exemplo dessa característica. Não posso então deixar de situar no início da minha palestra que a situação cubana guarda uma estreita relação com a existência e os atos do capitalismo imperialista.

As raízes da situação atual de Cuba remontam à solução revolucionária dada pela insurreição triunfante em 1959 à necessidade de destruir o sistema de exploração, dominação e opressão que vigorava no país, ao mesmo tempo que a dominação estrangeira. De 1959 em diante, a Revolução formou os atores das mudanças colossais que sucederam, levou a cabo essas mudanças, assegurou a permanência e a força de um poder revolucionário, e conquistou profundas transformações das pessoas e das relações sociais.

O povo tem sido e continua sendo o protagonista dos fatos, é a expressão social dos seres humanos que crescem e é um conceito central. O poder revolucionário é sua maior criação e sua natureza e atuação constituem a via e a garantia das conquistas fundamentais e da permanência da Revolução. Sempre tem sido indispensável que o poder seja muito forte, mas nunca esqueçamos que este poder tem dois traços característicos fundamentais: a) é fruto dos instrumentos e das grandes jornadas da Revolução, como o Exército Rebelde, a revolução agrária, a alfabetização, o controle total sobre a economia nacional e o armamento geral do povo; e b) guia-se por um projeto de libertação que nos transcende e governa a todos. Por isso, é um poder popular revolucionário. A economia, como as demais dimensões da sociedade cubana, se rege por: bem-estar da maioria; planos socialistas de viabilidade das relações sociais econômicas; e uma estratégia nacional de país soberano.

Essas são as bases intangíveis da Cuba atual. É imprescindível partir delas para comprendê-la, utilizá-las como conceitos reitores e como bússola das análises que façamos da situação e das perspectivas.

Ao examinar a situação atual não os cansarei com muitos dados. Existe uma boa disponibilidade deles nos meios digitais cubanos, e também em publicações periódicas e alguns livros valiosos.

A grande crise dos anos 1990 foi a variante cubana do curso de dois processos: o final sem êxito dos esforços e ideais de desenvolvimento do Terceiro Mundo que tinham preenchido a segunda metade do século 20; e o início pelo grande capital de uma recolonização seletiva em escala mundial. Como nós, cubanos, somos os donos de nosso país, seguimos governando nossas relações internacionais, mas como somos “subdesenvolvidos”, nos confrontamos com muitas variáveis que estão fora de nosso controle. Uma consequência foi a perda das relações econômicas com a URSS e alguns de seus aliados, nas quais tínhamos baseado a maior parte da reprodução material e o sistema econômico. Foi um golpe tremendo para um país como Cuba, porém o mais impressionante é que apesar de confluírem no tempo dois processos tão adversos, incluída a unipolaridade, a nova sociedade e o poder cubanos não caíram.

Um aspecto importante do campo ideológico totalitário imperialista sobre a maior parte da informação e formação da opinião pública que se consome cotidianamente é a decisão de quais temas existem e são divulgados, quais são seus dados, como se devem entender e que opinião deve ter a grande maioria, que é reduzida a um público consumidor. Do mesmo modo, se manipulam os que não lhes são convenientes, com campanhas de mentiras e distorções, e se decreta o desaparecimento de outros temas, cada vez que lhes é possível fazê-lo. Por isso, durante décadas vigorou um sistema de mentiras acerca da suposta incapacidade de Cuba de valer-se por si mesma, um alimento típico da condição colonizada que eles necessitam impor às mentes e aos corações. Mas diante das realidades da resistência vitoriosa de Cuba nos anos 1990, esse sistema foi retirado em silêncio, sem que os imperialistas se tenham visto obrigados a reconhecer que mentiram com tanto entusiasmo e contumácia. A última forma referida, o controle ideológico com o emprego do silêncio midiático, é a que se emprega contra os cinco heróis cubanos presos nos Estados Unidos desde há quase quatorze anos, e por isso é tão importante a solidariedade mundial dos que exigem sua libertação, que ao mesmo tempo que se mobilizam e se tornam mais conscientes lutando por uma causa justa, denunciam a máquina criminosa que pretende unir a sua insondável maldade à capacidade de extirpar o altruismo, a capacidade de pensar e as qualidades humanas das maiorias do mundo.

Nós, que estamos conscientes e nos opomos ao sistema poderoso de mentiras, temos o dever de ajudar a estender e aprofundar essa consciência, a que ela seja assumida por tantas pessoas modestas que ainda são enganadas e manipuladas por aquele poder.

Os três desafios destes últimos vinte anos em Cuba têm sido: conseguir a sobrevivência; conseguir a viabilidade econômica; qual será finalmente a natureza do regime que tem vindo a emergir da crise dos anos 1990. No momento mais agudo da crise, foram decisivos três saberes populares: devemos defender sem concessões a soberanía, defender a justiça social, e o poder revolucionário é o verdadeiro defensor de ambas.

Tiramos muito proveito da conjuntura tão difícil e arriscada que vivemos há vinte anos. Então ficou claro o que não é socialismo, a necessidade de confiar sobretudo em nossos princípios, convicções e forças próprias, e como foi acertado manter e desenvolver o socialismo cubano.

Nas duas últimas décadas se produziram mudanças grandes e importantes. A crise e algumas das medidas aplicadas para enfrentá-la, implicaram retrocessos com respeito à nova sociedade e a seus projetos. Mas a estratégia geral e a maior parte das medidas e a vontade revolucionária foram positivas e foram decisivas. A unidade política do povo e deste com seu poder é o fator principal da esfera política. O poder político da Revolução se manteve incólume e controla a economia nacional e suas relações internacionais. A estratégia e as ações principais são dirigidas ou controladas por esse poder. A utilização dos recursos se rege pela política revolucionária. Os serviços sociais básicos do socialismo cubano se mantêm, apesar das dificuldades de tipo diverso que enfrentam, e constituem ao mesmo tempo uma de suas representações ideais fundamentais. A redistribuição sistemática da riqueza a favor das maiorias continua, portanto, sendo fundamental. Luta-se por manter as oportunidades para todos como uma tendência principal, mediante diferentes iniciativas e instrumentos impulsionados e controlados pelo Estado.

Passo agora a referir-me a elementos importantes da situação atual e às medidas em curso, sem pretender tratar todos nem entrar em detalhes, o que seria impossível aqui. Minha intenção é ilustrar com essas referências o momento em que estamos e contribuir modestamente aos trabalhos deste Encontro de Solidariedade.

A dimensão econômica da sociedade está no centro da atividade, nas preocupações, normas e outras medidas e nos debates cubanos atuais. Tem-se empreendido uma profunda reorganização da formação econômica, que afeta de algum modo a todos e recebe a atenção prioritária da máxima direção do país, do Partido, do Estado, das organizações sociais e dos meios de comunicação. Desde as magnas reuniões do Partido e da Assembleia Nacional do Poder Popular até as das bases das instituições locais – um exercício democrático sistemático que abrange todo o país –, em todos esses âmbitos as diretivas são examinadas, assim como as opiniões e os problemas. A população inteira vive envolvida de um modo ou outro nesta conjuntura.

No período recente, 150 mil agricultores receberam em usufruto quase 1,4 milhão de hectares. Foram eliminadas instâncias estatais na distribuição de produtos agrícolas e facilitadas as vendas diretas. Estimula-se a produção e a comercialização de alimentos em escala local e se dão facilidades de compra de equipamentos e outros implementos aos agricultores particulares.

O número de trabalhadores por conta própria aumentou a 350 mil, mais do dobro de quando se ampliou a possibilidade de se tornar um trabalhador dessa caategoria, há um ano e meio. As formas de emprego não estatal se ampliam com as cooperativas e o arrendamento dos locais em numerosos ofícios e serviços urbanos. A força de trabalho não estatal, que foi uma proporção ínfima durante mais de 30 anos, cresce e se espera que alcance 40% do total em 2015. Foram reduzidas as proibições e taxações e o imposto avança como instrumento de captação de receita pelo Estado no caso desses trabalhadores. Em alguma medida são concedidos créditos aos novos pequenos empresários e se dão subsídios a pessoas de baixas rendas para reparar suas habitações. Autorizou-se a compra e venda entre particulares de casas e automóveis de uso.

Avança-se nas mudanças no sistema de empresas. Os chamados esquemas “fechados” de financiamento permitem um acesso descentralizado e mais fluido ao dinheiro que se necessita para custear investimentos e a produção. Entre outras áreas, funcionam na indústria médico-farmacéutica, na produção petrolífera, na agroindústria açucareira, nas aerolíneas, no turismo e no tabaco. A ideia geral é permitir às empresas mais autoridade e controle sobre suas atividades e sobre uma parte de seus lucros, ao mesmo tempo que se exige delas dar prioridade a investimentos que possam ser amortizados e resultar em lucros a curto prazo.

Ainda que com fortes dificuldades e obstáculos, se avança na desconcentração que fortalece as instâncias locais e espera-se de seu desenvolvimento um dinamismo e uma multiplicação de forças. Já há experiências em curso de separação clara de funções e se pretende aumentar o controle de províncias e municípios sobre empresas públicas de seus territórios.

Os resultados econômicos são muito variados. Há setores agrícolas que crescem em suas produções, enquanto outros não cumprem seus planos. Foram incrementadas as vendas ao exterior de níquel, combustíveis, açúcar e tabaco, com preços mais favoráveis. Também cresce o turismo. A exportação de serviços de alto valor agregado é uma fonte muito sólida de receitas para o país. As remesas enviadas a seus familiares por cubanos que vivem no exterior constituem uma importante fonte de divisas. Mantém-se uma tendência positiva ao equilíbrio fiscal, relacionada com poupanças obtidas em alguns setores, maiores aportes de diversos ramos, crescimento das receitas com impostos ao setor privado e à circulação. Mas os subsídios para enfrentar perdas do setor empresarial continuam sendo uma carga pesada.

Se vamos mais além da relação de fatos acerca das mudanças econômicas em curso, poderíamos sintetizar várias características gerais:

1- A posição firme da máxima direção do país quanto a manter o rumo socialista diante de qualquer disjuntiva, que se comunica a todos e preside o que se executa; 2- A capacidade e o poder que tem essa máxima direção sobre as decisões políticas e econômicas e sobre os recursos e sua atribuição; 3- Os ideais e a ideologia socialista e de defesa da soberania nacional que mantém uma grande parte da população. Em muitos é explícita, em outros é tácita, mediante sua identificação com a maneira de viver socialista e com a pátria; 4- A política social revolucionária que continua sendo aplicada e recebendo os recursos necessários e os princípios que a regem; 5- A centralização pelo poder revolucionário do controle dos recursos, da propriedade ou o domínio sobre as grandes e médias empresas, sobre o investimento, a macroeconomia e seus planos.

Na situação atual, a estratégia do país e suas táticas estão condicionadas pelo caráter limitado de suas forças e por numerosos fatores externos.

Predomina a estratégia de:

a) manter e desenvolver polos de produção e serviços capazes de operar bem, reger-se por normas e controles, obter bons rendimentos e atrair investimentos, para exportar e para resolver necessidades nacionais; b) importar alimentos e outros bens necessários à população, a preços muito altos; c) reduzir importações, seja pelo nível do comércio ou da produção nacional; d) aumentar a produção nacional, buscando como alavanca principal as transformações da política para com o setor agropecuário; e) redistribuir paulatinamente a força de trabalho, evitando o desemprego em massa e ao mesmo tempo erros por precipitação; f) aumentar as micro e pequenas empresas privadas que ofereçam serviços e bens para o consumo interno, e em alguma medida para turistas; g) impulsionar outras medidas para dar mais espaço às atividades econômicas privadas; h) investimentos e uma atuação enérgica em obras de infraestrutura que são importantes para o desenvolvimento do país.

As relações econômicas internacionais são controladas totalmente pelo Estado ou seus órgãos. A direção do país conduz as relações com contrapartes preferenciais, como Venezuela, China, Brasil e outros países. Cuba mantém relações econômicas com toda a América Latina. Algumas empresas e negócios conjuntos têm uma grande envergadura, como a refinaria de Cienfuegos e a área portuária e industrial de Mariel; a extração de petróleo no norte da ilha começa a se tornar realidade. Estas relações econômicas guardam fortes ligações com o conjunto da política exterior cubana, que tem uma atividade e um prestígio muito superiores às dimensões do país, e que combina muito bem seu rigoroso apego aos princípios com a flexibilidade, a capacidade de negociação e a presença em inumeráveis terrenos.

Como tem reiterado o companheiro Raúl, foram e serão feitas as modificações legais que sejam necessárias, mas há uma fronteira: o sistema socialista é intocável. Mecanismos de regulação como os impostos e o pagamento da Seguridade Social, entre outros, servem para conter as lógicas de desigualdade que geram as altas rendas de alguns segmentos da sociedade. O essencial é que ninguém fique desamparado, que todos permaneçam dentro do sistema de justiça social que possamos garantir, e que as rendas, não importa quanto, sejam somente fruto do trabalho honrado.

O presidente denunciou a corrupção administrativa como um inimigo principal da Revolução e impulsionou uma campanha decidida de enfrentamento contra ela, que utiliza todos os instrumentos da legalidade e não se detém diante do nível dos que sejam culpados. Como fez Fidel ao longo de nosso processo, Raúl denuncia os que pretendem formar grupos no seio do próprio aparato estatal, que acumulam riquezas e esperam a partir de suas posições um eventual regresso ao capitalismo.

O trabalho consciente sobre o Estado e o mercado é fundamental para a transição socialista, e deve ser divulgado, somar esforços e iniciativas, convertê-lo em uma tarefa prioritária que terá que durar muitos anos. É um dos aspectos principais da Revolução. Ainda são insuficientes os esclarecimentos e os debates acerca do que é desejável, permissível ou inevitável em cada momento do processo, e por conseguinte o que se deve impedir, criticar ou denunciar.

Os Lineamentos aprovados no 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC) deixam claro que devem prevalecer a distribuição socialista, a empresa como unidade fundamental e a planificação. Mas na prática pesa muito o pragmatismo. O socialismo entendido somente como a distribuição justa da riqueza social é insuficiente, mas fez aportes maravilhosos a favor das maiorias, primeiro a partir das grandes medidas e leis, depois através de sua sistematização na segunda e terceira décadas da Revolução. As pessoas, as famílias e as comunidades melhoraram radicalmente suas vidas e suas relações, e conseguiram mudar em muitos aspectos positivos. Se bem que não foi possível assegurar um desenvolvimento econômico totalmente autônomo, produziu-se um desenvolvimento econômico muito notável e, sobretudo, uma modificação radical da economia e de seus objetivos. Isso não sucedeu pela aplicação da norma de “a cada um segundo seu trabalho”. Foi porque a grande maioria trabalhou e se esforçou como cubanas e cubanos. Assim se obtiveram e se distribuíram as conquistas, os bens e as oportunidades, e isto foi um avanço humano e social imenso, diante da situação terrível a que o capitalismo submete as maiorias onde domina.

Não podemos esperar que se obtenha a eficiência econômica mediante as supostas leis cegas que ela mesmo porta, nem pelo auge do “senso comum” ou por virtudes da iniciativa privada postas a serviço do socialismo, como seria, por exemplo, o império sem regulações da chamada relação entre a oferta e a demanda. É necessário varrer a ineficiência, o burocratismo e a inércia e desenvolver as motivações e a capacidade de utilizar bem os esforços a partir do tipo de sociedade que temos criado. “Advirto que toda resistência burocrática ao estrito cumprimento dos acordos do Congreso (…) será inútil”, disse Raúl na Assembleia Nacional em agosto passado.

Na atualidade se desenvolve em Cuba uma situação complexa, em que convivem os dessemelhantes em paralelo. Entre outras mudanças, a obtenção de rendas e a satisfação de necessidades e desejos se tornaram mais diretas do que nas décadas anteriores, nas quais as agências sociais eram as mediações principais. Também cresceu o papel do fator internacional na vida econômica pessoal e familiar de muitos, através de remessas, missões, turismo, trabalho em “firmas” ou venda de serviços.

A grande insuficiência do socialismo que existiu em escala mundial é que não conseguiu ainda acumular forças culturais suficientes a seu favor, eficazes e atrativas na luta contra o capitalismo e sobretudo para o combate pelas transformações libertadoras das pessoas, das relações interpessoais e sociais, e novas relações com a natureza. Enquanto isso, o capitalismo chegou a um beco sem saída, por sua própria natureza atual, que é excludente para as maiorias, parasitária na economia, colonialista, antidemocrática, militarista, agressiva e depredadora do planeta. Mas o capitalismo segue obtendo um imenso proveito do modelo cultural em escala mundial que desenvolveu e das enormes forças e conhecimentos com que conta. Com estes move contra todos os povos, incluindo o nosso, uma formidável guerra cultural, mediante a qual aspira a converter-se no controlador de todo o horizonte da vida cotidiana, da realização pessoal e da convivência social.

Como sucede em todo país que tem um poder revolucionário e realiza uma transição socialista, em Cuba existe uma luta permanente entre as relações e os valores do socialismo e as relações e os valores do capitalismo. Mas, além do poder revolucionário e da decisão popular de defender nosso tipo de sociedade, em Cuba funciona uma extraordinária existência pacífica, desde a pessoa e as famílias até as comunidades e a nação. Esta é uma das maiores conquistas da Revolução, ainda que quase nunca se fale dela, e está na base de um fato que é crucial: em Cuba não há pleitos políticos. Existe, sim, uma grande luta cultural entre as relações e os valores de ambas as maneiras de viver e sentir, e essa luta indica os lugares da disjuntiva e as tensões que marcam a vida dos cubanos na atualidade e diante do futuro previsível. No curso das duas últimas décadas, o capitalismo tem recebido reforços, mas o socialismo se sabe e se sente superior como forma de vida humana, e mantém seu predomínio no essencial.

O imperialismo norte-americano, por sua parte, não relaxou nunca, durante mais de meio século, em seu desígnio de destruir a Revolução cubana e voltar a dominar nossa pátria. Houve e há matizes e diferenças táticas entre eles, é natural; mas seu denominador comum é ditado por sua natureza criminosa: destruir a sociedade que estamos criando; reimplantar o capitalismo; neocolonizar-nos; e apagar nosso exemplo, que temem tanto, porque é tão subversivo para sua ordem. É necessário manter o conhecimento dos modos atuais de operar que o imperialismo utiliza contra Cuba, com suas novidades que querem ser sutis e sua velha soberba, sua imoralidade e sua entranha reacionária. Permitam-me citar um intelectual cubano que teve que conviver anos com eles para servir melhor à Revolução, e se converteu em um herói: Raúl Antonio Capote, que foi o agente Pablo para a CIA, mas era Daniel para seus irmãos cubanos. Diz, em seu livro Inimigo, que acaba de ser publicado em Cuba: “A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos da América elaborou um complexo plano de subversão político-ideológica, dirigido a converter os jovens cubanos em inimigos da Revolução. Para conseguir seus objetivos investiram enormes recursos humanos e materiais.”

A tarefa cubana é difícil, nós, cubanos, estamos conscientes disso e o governo revolucionário dá passos paulatinos para enfrentar os problemas, ao mesmo tempo que preserva o valor supremo, que é a conservação do caráter socialista do processo. O companheiro Raúl tem reiterado a necessidade de que a população opine livremente e se contraponham critérios, a fim de encontrar os melhores caminhos e obter os consensos imprescindíveis para que seja a participação de um povo revolucionário nas decisões o fator que garanta a multiplicação dos esforços e das conquistas, a criatividade e também os sacrifícios, e que essa união organize e viabilize a força necessária para vencer os obstáculos e triunfar. Não esquecemos que há muitos defeitos acumulados, que fecham o caminho à satisfação dessas necessidades. A essência mesma do problema está pedindo que sejam debatidos a fundo os problemas centrais da concepção revolucionária socialista, não em torno de qualquer sucedâneo fugaz ou perigoso, mas na e para a revolução socialista, e depois de seus objetivos mais transdendentes.

Diante das duras carências de recursos materiais, é meridianamente claro que o fator subjetivo tem que ser o determinante na transição socialista cubana. Seria criminoso não utilizar o imenso potencial que o país acumulou no campo dos conhecimentos, do manejo das técnicas, da politização, da consciência, da cultura do povo. O número e a qualidade de pessoas capazes e conscientes é superior aos demais recursos disponíveis, mas sua utilização efetiva constitui ainda uma fração do que se espera: entraves enormes e muitas vezes absurdos o impedem. Se conseguimos viabilizar a utilização de nossas forças, poderemos aumentar sensivelmente a produção, os serviços, a eficiência, o bom governo, a resolução dos problemas, o enfrentamento das carências, e otimizar o emprego dos recursos com que contamos.

Não é necessário nenhum recurso material para ser solidário e fraterno, para aprender a não viver do esforço alheio e de costas ao que o país necessita. Exigir laboriosidade e retribuir o trabalho são duas tarefas que podem ser feitas a partir de posições muito diferentes, inclusive opostas. O capitalismo experimentou todos os usos da coação e do dinheiro para conseguir que as maiorias trabalhem com eficácia, e também todas as suas combinações, em beneficio de seu lucro e do poder da burguesia. A transição socialista – e isso Che explicou muito bem em O socialismo e o homem em Cuba – tem pontos de partida muito diferentes para fazer cumprir essas exigências sociais, porque seus objetivos são opostos, e ao mesmo tempo diferentes. O socialismo utiliza o salário e outras categorias provenientes do capitalismo, mas não se submete a elas. E jamais deve utilizá-las sem a segurança que lhe dá o comando que exerce o poder popular revolucionário sobre a economia.

As aprendizagens do mundo do trabalho e da eficiência em Cuba estão tratando de articular-se intimamente com as da educação das crianças e dos jovens, com a formação moral de todos; por exemplo, para quê trabalhar, por que devemos servir aos demais como nos servem, como a produção de bens e serviços é um requisito indispensável para manter e fazer avançar a justiça social. Trabalhamos para conseguir que os meios de comunicação social estejam realmente a favor da formação socialista e prestem esse serviço ao povo, que o meio político seja o veículo eficaz da participação popular e se plasme uma união de governo e serviço, um lugar em que sejam bem-vindas as iniciativas e as criações. A economia e a política são demasiado importantes para que o povo não participe decisivamente em suas decisões.

A batalha cubana atual tem uma importância trascendental. Outra vez se joga aí uma parte do destino deste continente. Nos lares cubanos é cotidiana a referência ao familiar que está cumprindo alguma missão de trabalho solidário em outro país da América Latina e do Caribe, porque são dezenas de milhares. Em Cuba, nas atividades e organizações estudantis as cubanas e os cubanos compartilham com mais de trinta mil estudantes não cubanos, que em sua grande maioria são latino-americanos. Na contenda das imagens, que é crucial no enfrentamento cultural mundial entre o imperialismo e os povos, vemos as pessoas de baixo, os mais humildes do continente, explicando como vivem e resistem, e como agora se mobilizam e têm esperanças. As pessoas em Cuba estão pendentes do que ocorre em todos os países irmãos, do Rio Bravo à Patagônia. Vivem com emoção as lutas populares e os processos populares da Venezuela, Bolívia ou Equador.

Nosso país desempenha um papel muito notável na nova etapa que se abriu na América Latina, e pode fazê-lo pela grandeza da revolução que soube resistir impávida sem ceder seus princípios, formar um povo com qualidades, capacidades e consciência política incomparavelmente superiores a seus meios materiais, e mudar a vida e a sociedade no sentido da libertação, do bem-estar e da dignidade. O exemplo que Cuba deu aos povos colonizados e oprimidos do mundo é excepcional, e seu prestígio lhe dá um lugar privilegiado de potência moral, mas também conta com forças palpáveis que são capazes de atuar a favor dos humildes deste continente de maneira eficaz – como são suas contribuições na saúde e na educação –, e de atuar politicamente a favor das alianças de poderes revolucionários e as concertações daqueles que reclamam autodeterminação para seus países e avanços na distribuição da riqueza social para seus povos.

As grandes revoluções contraem enormes obrigações. José Martí intitulou “A alma da revolução e o dever de Cuba na América” um artigo seu que publicou por motivo do terceiro aniversário da fundação do Partido Revolucionário Cubano. Não me referirei à lição extraordinária de teoria para a praxis desde o anticolonialismo que nos deixou naquelas poucas páginas, dedicadas às tarefas sumamente complexas que sempre carregam as revoluções. Limito-me a citar umas frases suas: “É preciso prever, e marchar com o mundo (…) Um erro em Cuba é um erro na América, é um erro na humanidade moderna. Quem se levanta hoje com Cuba, se levanta para todos os tempos (…) a independência de Cuba e Porto Rico não é só o único meio de assegurar o bem-estar decoroso do homem livre no trabalho justo aos habitantes de ambas as ilhas, mas o acontecimento histórico indispensável para salvar a independência ameaçada das Antilhas livres, a independência ameaçada da América livre, e a dignidade da república norte-americana”. Aquele artigo foi publicado em um 17 de abril. Nessa mesma data, 67 anos depois, a força do povo e o poder revolucionário, já unidos em Cuba, foi combater em Girón a invasão dirigida pelos Estados Unidos, e obteve a primeira vitória do socialismo na América. No 13º aniversário, em 1974, Fidel disse: “Depois de Girón, todos os governos da América Latina foram um pouco mais livres”. Trinta e oito anos depois, podemos parafraseá-lo, dizendo que a vitória do modo de vida socialista em Cuba contribuirá para tornar todos os povos da América Latina mais livres, mais socialistas.

Fonte: Cubadebate
Tradução por José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho

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